A Menina Que Queria Ser Estrela 

Diário de Bordo

Lugar destinado a postagens realizadas por todos integrantes da esquipe, apontando ideias para a montagem, pontos de vistas diferentes, percepções, insitghts, sensações, referências, ideias, relações com pesquisas, enfim todo tipo de material pertinente a produção. 


Encontro dos dias 02 e 04 + INOVA SOCIAL 

Sobre a cena do Sanguanel

O que faz a cena? "A ordem dos fatores não ALTERA o produto". Havia o balde e o balde atrapalhava. Pensaram em tirá-lo, substituí-lo, criar sem ele, e depois... Inseri-lo. A cena "iseguia" ou "aseguia". O balde era o problema. É do problema que na matemática extraímos a solução. A ordem dos fatores não ALTERA o produto. Desordenar os fatores não faz uma nova cena, fatores próximos nos trazem resultados aproximados, o balde era o novo fator, o X da questão, pois o resto da equação já havia sido feita e verificada na cena do João com Menina. A conta é:

CENA GULOSEIMA

(Sami/Menina + João/ Guloseima) + Texto x Procedimentos = CENA

Recorte da direção + desejo do ator

A dificuldade era descobrir o valor de X, o valor do balde. O novo fator não é instrumento apenas, é vetor em dispositivo, que provoca modificações múltiplas, por onde passa, ALTERA. O corpo do ator com balde é outro, para segurar o balde é preciso uma parte do corpo. O outro ator cria relação com o balde e não apenas com o personagem. Tudo se transforma, isso distancia o resultado das equações, não trocamos um ator por outro ator (Léo por João) apenas, inserimos o balde, ou trocamos o balde por bolsa e tatunopé. Mas a bolsa não era X como foi o balde, talvez essa seja a diferença, descobrimos valores diferentes para o balde enquanto o valor da bolsa era bolsa = bolsa. As frutas possuíram dois valores 3 frutas = comida + bolas de malabares ou 3 bolas de malabares= bolas de malabares + comida. A forma que se pensa o objetivo, pensá-lo como problema, é solucioná-lo, colocar valores diferentes, pois o valor de X só se sabe no resultado da equação.

CENA SANGUANEL

(Sami/Menina + Léo/ Sanguanel) + BaldeX + Texto xProcedimentos = CENA

Recorte da direção + desejo do ator

Todo fator desta equação pode ser o X na questão, ou não.

Sobre o Inova

Interferencia para ALTERAÇÃO - ALTERnativa - Ação Alternativa. Cada elemento que interfere é novo fator na equação que faz a cena, cena que surge na descoberta do valor de X. Interferi com o figurino na ação da Lua enquanto estátua,novas ações surgiram, o figurino era vetor em dispositivo, todo vetor fecha e abre possibilidades. O que causa um processo de desumanização, é como o celular que nos permite a comunicação a distancia, é desumano, ou melhor, sobre-humano. É um vetor que modifica totalmente nossa relação. O figurino que nos limita é vetor, o que pode ser usado, segurado, agarrado é vetor. A potencia do vetor é descoberta que cabe ao criador, é o valor de X.


POR: Marco Antônio Reis 

A Menina que Queria Ser Estrela no INOVA SOCIAL - 16/17 de Maio de 2017

A Cia NÓS de Teatro esteve presente na semana do INOVA WEEK na UVV, com o projeto " A Menina que Queria Ser Estrela" que está sendo desenvolvido em parceria com o Grupo de Pesquisa Poéticas da Cena Contemporânea, além das parcerias com os Cursos de Publicidade e de Fotografia.

Mas o que é a INOVA WEEK? É uma semana, onde incetiva-se o desenvolvimento de projetos em suas respectivas áreas sendo assim temos o: Inova tech, o Inova Saúde, e o Inova Social que é onde nós estamos. No Inova Social objetiva-se desenvolver a parceria entre os demais cursos, a criatividade e principalmente a produção de algo inovador.

Nossa proposta para a participação do evento surge com um Livro Interativo, um movimento dos anos 60 e 70 baseado nos jogos de RPG, onde o leitor atua como co-autor da história escolhendo diferentes caminhos e chegando a diferentes finais. Nosso objetivo é promover o incentivo à leitura, através da curiosidade, onde leitor pode a partir de um mesmo livro fazer descobertas diferentes. Além disso o foco do nosso projeto como um todo está centrado no folclore brasileiro. A menina que queria ser estrela na verdade, é a história da Vitória Régia, que é uma índia que quer se tornar estrela, com isso buscamos promover a disseminação e resgate dessa cultura, apresentado para o povo capixaba seres pouco conhecidos em nosso região, tais como Cepelobo, Sanguanel, e Japim. 

Fotos: Brenda Perim e João Giry - Ilustrações de alguns personagens
Fotos: Brenda Perim e João Giry - Ilustrações de alguns personagens

Mas para a exposição no evento do INOVA, não levamos apenas o protótipo do nosso livro interativo. Levamos fotos do processo de criação, figurinos que estão sendo desenvolvidos, e uma estátua viva que é um dos personagens tanto do livro quanto do nosso espetáculo. Mas espetáculo? O que o espetáculo tem a ver com o INOVA? Bom, no nosso livro apenas de ter duas pessoas que organizam a história, ela não sai apenas da cabeça deles, tudo surge em sala de ensaio. A partir das proposições e criações dos atores (através de procedimentos das artes cênicas) a história é organizada, então dependendo do que surge em sala de ensaio nos levamos pro livro em formato de rima e poesia que é para "abraçar" o nosso leitor de modo confortável, uma vez que nosso público alvo é o público infato juvenil, ou seja, crianças e adolescentes de 8 a 16 anos.

Fotos: Brenda Perim e João Giry
Fotos: Brenda Perim e João Giry

Foi muito bacana perceber a reação do público de diferentes maneiras. A relação com a estátua e a curiosidade para saber o que era aquela figura " É de verdade? " "Tem uma pessoa ali dentro? " " Eu acho que é uma estátua"; A relação com as possibilidades do livro "Então quer dizer que se eu ler o mesmo livro eu vou conhecer várias histórias? " " Como assim tem vários finais/"; A relação com o figurino e as descobertas desses seres mitólogicos; A relação com a criação do livro que surge em sala de ensaio.

Enfim, gostaríamos de agradecer a todos os envolvidos, os integrantes da equipe que ajudaram no processo, a todas as pessoas que se interessaram pelo projeto, e sugeriram diversas ideias para que ele continue se aprimorando. Foi SHOW

Diário de Bordo. A menina que queria ser estrela. 25 e 27/04

A cena do Sanguanel e da Menina, sem dúvidas ainda me intriga por N fatores. Um desses seria o personagem em si, pois ao estar em cena consegui perceber que ele é muito mais complexo do que eu pensava, assim algumas concepções deste mudaram em minha mente.
Antes, tinha a ideia de um Sanguanel com o corpo e voz leves, um ser místico, quase como se fosse um deus, com partituras corporais totalmente fluidas em um tempo-ritmo pré-determinado, porém após o primeiro contato com o personagem através do jogo "Partitura compartilhada", estas concepções mudaram instantaneamente, pois surgiram mais ideias de corpo e voz vindos de Sami e João - aqui vale ressaltar que durante o jogo, vendo estas propostas novas, imediatamente emponderei-me destas, o que possibilitou que eu desconstruísse a ideia antiga de personagem e em seguida caminhasse para um lugar desconhecido, novo, que de certa forma me possibilitou criar a partir dos elementos externos (o corpo dos outros atores). Infelizmente penso que quando cai neste campo desconhecido, faltou-me intuição "A intuição é sempre tida como sendo uma dotação ou uma força mística possuída pelos privilegiados somente. No entanto, todos nós tivemos momentos em que a resposta certa 'simplesmente surgiu do nada' ou 'fizemos a coisa certa sem pensar'. " (SPOLIN. 2010. Pg. 02), ou exitei em segui-la. Talvez se tivesse me jogado realmente nessa experiência o resultado tivesse saído diferente.
Outro problema que se apareceu durante os ensaios foi a inserção de um objeto (o balde) em cena. De inicio, quando colocamos o objeto em cena, ouve uma dificuldade para manejar este e corpo em conjunto. Um impedia que o outro entrasse em foco, não havia uma situação harmonioza entre estes.
endo um pouco sobre objetos em cena, encontrei o TCC de um aluno do curso de artes cênicas da UFSC, Guilherme Freitas de Oliveira, onde o mesmo relata sua experiencia com o teatro de animação. Este diz que percebia uma relação de equilíbrio e respeito, entre Objeto e Ator. Dito isto, pude perceber que foi isso mesmo que aconteceu em nosso primeiro contato com algo novo. Não tínhamos familiaridade com aquilo, e na busca de encontrar caminhos de como utilizar e usufruir daquele objeto em cena, colocávamos o ponto de atenção (Spolin. 2010) neste, ao contrário do corpo, que era impedido de ir além da cotidianidade.Guilherme ainda coloca: "Acredito que para chegar ao objetivo estabelecido à transferência de energia ao objeto, ser esse fio conector que da vida ao inanimado, o ator deve começar pelo seu corpo, investigá- lo como instrumento de interpretação e expressão máxima, e depois dar espaço à interferência de outro corpo, ou objeto."A partir disso, começo a cogitar que esse seria um bom caminho para a cena do Sanguanel. Primeiro explora-se o corpo na sua maxima expressividade, descobre-se as nuances desse personagem. A partir do momento que estas ideias se concretizarem e se tornarem organicas no corpo dos atores, passamos para a etapa de inserir tal objeto."Os objetos são por natureza inanimados, portanto imóveis, assim que recebem estímulos externos, movimentos, com certa intenção por exemplo, tornam-se animados. Claro que não é simplesmente mover o objeto ou boneco, esses movimentos, estímulos externos, devem ser adequados, e contar com suas características, seu formato, seu tamanho, limitações próprias de cada objeto. O ator/manipulador deve aprender a respeitar tais características, adquirindo esta capacidade, o ator passa a ter uma conexão com o boneco, descobrindo nele de onde parte sua vida." (Idem. 2013)
Gosto de como ele coloca a ideia de uma conexão com o boneco (que seria o objeto dos atores que trabalham com o teatro de animação). Assim me pergunto, no nosso caso: como se criaria uma conexão com o balde?
Outro ponto que julgo ser muito importante na minha construção da personagem, é a vivência do campo de visão. Sem duvidas é aonde eu mais me aproprio da personagem, e evoluo esta, tanto corporalmente ou vocalmente falando. Se apropriar do que o outro te dá é ir além de suas próprias experiências, de seu olhar e percepção de mundo, e ao mesmo tempo é também adicionar a estes, o que o outro tem a te oferecer.
Durante o campo de visão, a voz de direção nos deus vários comandos e estímulos diferentes, os quais não me recordo muito bem. Entretanto lembro-me de ter aparecido o corpo de galinha e a voz de leão, os quais me mostraram um possível caminho a ser explorado para o sanguanel, pois se evidenciou uma dualidade do personagem, que antes já estava em meus anseios a serem pesquisados, causando assim, um contraste forte entre as partituras corporais e vocais, e mostrando possíveis nuances deste.De qualquer forma, sinto que aos pontos estamos conseguindo quebrar barreiras, digamos assim, do Sanguanel, um personagem complexo, que antes estava em um campo de total desconhecimento, e que a cada encontro vamos amadurecendo a relação deste para com o espetáculo como um todo. 
Referências:


OLIVEIRA, F. Guilherme. Em cena: o ator e o objeto. Florianópolis. 2013

SPOLIN, Viola. Improvisação para o teatro. 5 edição. São Paulo: Perspectiva, 2010.


Por: Leonardo Dariva 

Encontro do dia 20 de Abril de 2017

Olá! Sou o ator João Mendes, na montagem eu faço os personagens Guloseima e Lua. E esta será minha primeira publicação no blog.

Começamos o nosso encontro com uma pequena reunião para apresentação de propostas de arte para o espetáculo. O João Giry que está encarregado diretamente com essa função, mas o grupo todo também está levantando sugestões e ajudando a aperfeiçoar o trabalho.

Foto: Ensaio dia 20 de Abril de 2017, arte de João Giry
Foto: Ensaio dia 20 de Abril de 2017, arte de João Giry

Nesse encontro (depois da passagem do Giry) estava eu, Sami, Léo e a Brenda. Antes de irmos para a prática, tivemos que fazer uma pesquisa individual de voz. Cada um em seu lugar deveria buscar em vídeos no youtube personagens com qualidades vocais que pudessem ajudar no processo. A princípio eu pensei que iria ajudar a propor para o personagem Sanguanel, feito pelo ator Leonardo Dariva, mas logo fui interrompido pela indicação de pesquisa pela Brenda, de pesquisar a voz do Tarzan quando criança. Logo pude associar o Tarzan com o Guloseima e questionei se era para o meu personagem ou o Sanguanel e sim, era para o Guloseima, mas mesmo assim mantive a minha lista para próxima atividade com todas as pesquisas feitas, sendo para o Guloseima ou não.

LINHA DE PESQUISA:

Sanguanel:

  • Velha > Monstros S.A. > Travando a garganta. Pesando o ar para sair.
  • Tico ou teco > Tico e Teco > Se pesa o meio da língua e recua o queixo para falar.
  • Carangueijo > Moanna > Boca totalmente aberta mostrando os dentes e ralentar o final das palavras. Voz com muito ar.

Guloseima:

  • Pershack > Tarzan > Grave. Pesado. Laterais da boca caída.
  • Mogli > Mogli > Voz aberta. Suave escorrida.

Durante a pesquisa de vídeos encontrei uma dificuldade em achar material vocal que me agradasse, tanto para o Sanguanel quanto para o Guloseima. É uma transformação. Lembrei-me de vários personagens que quando criança achava que a voz era de certa maneira e escutando durante a pesquisa era outra coisa. E tentando fazer uma aproximação com a minha voz ficava algo mais distante ainda.

Depois da pesquisa foi dado o primeiro passo para a prática, com o compartilhamento vocal, cada um em seu ponto 0 (onde o ator se encontra em um determinado lugar do espaço de forma neutra) e cada um na sua vez iria experimentar a proposta da vez e depois propor uma nova. Por exemplo, o ATOR 1 começa com uma proposta vocal, experimenta no espaço até saber qual é exatamente este som, com essa certeza ele repete e vai em direção ao ator da sua escolha que se tornará o ATOR 2, o ator 2 ele escuta a proposta, podendo repetir junto com o ator 1 até conseguir emitir o mesmo som de acordo com a sua capacidade vocal. Depois que o ator 2 consegue reproduzir o som sem ajuda ele sai da frente do ator 1 e no espaço ele para de repetir e faz uma busca individual, trazendo uma nova proposta e o jogo segue com o ATOR 2 indo em direção para o ATOR 3 e o 3 para o ator 1, criando um ciclo.

ATOR 1 > ATOR 2 > ATOR 3 > ATOR 1 > ...

Trabalhamos com falas avulsas a partir da busca vocal de um personagem, experimentando as possibilidades, podendo depois propor de forma livre. Havia momentos, por exemplo, que eu experimentava a voz do Tico ou do Teco (?) e que o resultado saia de uma forma inesperada, cômica, e isso aconteceu com os outros atores também. Rendeu de uma forma engraçada, mas rendeu. O que me ajudou muito foi o misto que fiz de todos os personagens de pesquisa, por isso achei importante não descartar nenhuma possibilidade.

Após o trabalho vocal, fomos para o corporal, onde eu e a Sami devíamos propor um corpo para o personagem do Léo, o Sanguanel, tendo como material interno uma qualidade para ele, sem muita limitação. Cada ator também ficou com um balde como um objeto atrapalhador.

Foto: Ensaio dia 20 de Abril de 2017
Foto: Ensaio dia 20 de Abril de 2017
Foto: Ensaio dia 20 de Abril de 2017
Foto: Ensaio dia 20 de Abril de 2017


Primeiro, cada ator fez seus 3 GP's e depois começamos com o compartilhamento corporal. Que seguiu da seguinte maneira, ATOR 1 propõe um corpo, Léo como ator do personagem da pesquisa deveria copiar, ATOR 2 propõe o corpo e o Léo deveria sintetizar os dois e depois mostrar a sua proposta. Depois de certo tempo a Brenda pediu para que a Sami assumisse como a sua personagem Menina e eu e o Léo seguíssemos com o Sanguanel

Foto: Ensaio dia 20 de Abril de 2017
Foto: Ensaio dia 20 de Abril de 2017


Nesta última atividade percebemos o como estamos ainda estamos pobre de material de criação para o personagem Sanguanel, não de forma zerada, temos algo, mas precisamos investigar mais para transbordar conteúdo e depois lapidar este personagem, ainda não temos uma identificação corporal como já vimos em outros personagens, como a árvore, o caçador, o Capelobo, enfim, cabe a nós mesmo saber o que falta, o que tem para melhorar.

Um dos pontos levantados foi o balde como experimentação na pesquisa corporal, ele realmente foi um objeto atrapalhador, não foi ruim a inclusão dele, inclusive a permanência dele como um adereço para o Sanguanel seria ótimo, mas nos limitou muito na busca do corpo, pois em certos momentos pensávamos no corpo e logo lembramos que tinha o balde pra fazer algo, percebia que ninguém queria deixar de lado a utilização dele, mas também não conseguia executar certo corpo com ele. Talvez em primeiro momento não utilizar ele, sendo como foco o corpo. Claro que não foi em todas as situações, em cena mesmo o Sanguanel pode utilizar em alguns momentos, não toda hora, até para não se tornar um elemento repetitivo (sugestão). Mas na pesquisa senti falta de poder explorar mais meu corpo. Outro ponto foi as qualidades que eu e a Sami utilizamos como base para fazer o Sanguanel, eu utilizei o malvado e a Sami medroso (se não me engano), mas não era só isso, havia mais qualidades, não nos limitamos desta vez e ninguém sabia antes do jogo começar, todos souberam apenas depois da finalização do jogo e algumas coisas foram fáceis de descobrir durante o processo. Enfim, acredito que foi muito bom não ter limitado as qualidades, pois o Sanguanel como já disse, é um personagem que precisa de mais conteúdo para ser criado, precisamos de mais referências e estudar mais em relação a ele. Mas foi válida a pesquisa mesmo assim, pois exploramos campos e possibilidades que se caso já soubéssemos de uma prévia de caminho para ele talvez eu e a Sami não tivesse seguido a nossa imaginação de forma livre. 


Por: João Mendes 


Encontro do dia 11 de Abril de 2017 

Este é o nosso primeiro registro formal dos encontros. Desde o primeiro período quando conheci a prática de escrever sobre o processo percebi o quanto isso o potencializava, pois no processo de escrita coisas novas surgem, coisa antigas são relembradas, a uma atenção que é posta em foco nessa escrita, pratica-se a escrita para além da grade curricular da faculdade, surgem questão artísticas, questão de pesquisa, questões para cena, questões para a vida enfim. Então, o que escrever aqui? Tudo. Tudo que sentir vontade e desejo, jogue no papel, e compartilhe com o grupo, pois tendo em visto que tudo afeta e altera, de alguma forma isso afetará a montagem. Jogue desenho, gráficos, poesias, rabiscos, prosas, reportagens, vídeos e de tudo em tudo, aos poucos, como um quebra a cabeça os relatos vão se encaixar.

Nesse dia estávamos apenas eu, Sami, Leo e João. Marco não tem podido vir nos ensaios, isso é uma experiência muito diferente para mim, esse ensaiar fragmentado onde não estão todos presentes, me fez refletir pois sempre vi o processo como uma parte de um todo, onde isso interfere diretamente e todos acompanham, o ensaio está para além da sua cena, você não vai em um ensaio apenas para estar em cena, é uma contribuição mutua, e talvez eu nunca tivesse percebido isso de fato, e não que eu esteja reclamando, entendo que as vezes é necessário, mas isso acontecer me fez perceber essa relação de encontro, de estar presente, de interferir, de falar para além de estar em cena.

Mas vamos ao processo. Iniciamos com uma pesquisa de construção a partir da mescla de animais. Lecoque propõe o trabalho com os animais, mas acredito que a mescla é um desdobramento. Gosto de trabalhar com a mescla pois vai de encontro com a relação de abstração, pois a mistura de animais por mais que os dois sejam concretos, ao misturá-los se tornam relativamente abstratos, ampliando o campo de criação apesar de ter uma base. É uma relação de choque de vetores, principalmente quando são animais muito distantes, e é como se ao acontecer o choque de vetores de animais diferentes, nascesse o novo na fricção de criação entre eles (óh uma questão de pesquisa interessante).

Falando em pesquisa, lembrei de uma questão da minha pesquisa, que sempre me foi perturbadora que é: Como não diluir a produção da voz extra cotidiana em cena? A voz naturalista por exemplo, o ideal é que ela se dilua, há produções naturalistas por exemplo que tanto em relação a voz quanto em relação ao corpo, trabalham a extra cotidianeidade para ampliar o repertório, e depois vai se diluindo, diluindo, diluindo, até se atingir um efeito realista, meu objetivo é que não haja essa diluição, que a produção dessa voz fique e não como resíduo. Vi nesse momento uma possível resposta, pois no trabalho com a pesquisa com os animais, utilizamos a porcentagem. Os atores começam a pesquisa a partir do estímulo desse animal, se eles estão dando o máximo que eles conseguem ou não, a voz de comando que está de fora não sabe, quando ela diz que "agora você são 1% animal e 99% humano", independentemente do grau que os atores propõe inicialmente, conforme essa porcentagem aumenta, eles também deve aumentar. Então digamos que em uma produção livre, eles dessem inicialmente 50% e isso já fosse interessante para ir para a cena, o instrutor ainda pediria para que ele chegasse ao 100%, pois caso houvesse uma diluição para ir para a cena, ele não diluiria tanto. Além de que o passar por todas as porcentagens, de 1% a 100%, é um meio de reconhecimento corporal e vocal, onde você percebe mesmo que não intencionalmente, as nuances de variações de uma porcentagem para a outra. Porém percebo um empecilho, que não necessariamente é atrapalhador, em alguns casos acredito que seja estimulante, mas o fato é que interfere. É que na pesquisa vocal em conjunto, o fato de todos os atores pesquisarem juntos, faz com o propositor de uma voz, não a escute, pois ela nasce no meio de um caos, que sem dúvida é estimulador, porém você não consegue por em foco a sua própria escuta, e talvez isso dificulte na hora de retomar, pois o ator apesar de ter um reconhecimento do próprio corpo, sabendo que jogando a voz para cima ou para baixo, moldando a boca de um jeito ou de outro, não sabe necessariamente o som que isso produz, pois não há uma consciência do que foi produzido inicialmente.

Depois de todo o processo de pesquisa e construção vocal e corporal, realizamos o jogo de partitura compartilhada, para experimentar as possibilidades para a cena do Guloseima pedindo ajuda para a árvore. Sami havia comentado em outro ensaio no qual não fizemos o jogo o quanto esse ele abre repertório para os atores no momento de criação de cena, e realmente. Todavia, sinto que a falta de elementos reduz as possibilidades que poderiam ser criadas. Por exemplo, apesar de nada ainda está muito fixo, estamos fazendo a árvore com a extensão de dois paus nas mãos e bancos nos pés, o que já percebemos em outros ensaios o quanto diversifica as ações. Na partitura compartilhada não há o uso desses materiais para todos os atores que fazem a árvore isso impede a criação e proposição de outras pessoas, em relação a esses elementos, apesar de haver uma visualização, e uma criação a partir disso, não é como se houvesse o objeto em mãos, pois há uma relação de interferência que o objeto causa e molda no seu corpo. O mesmo acontece com a bolsa do Guloseima, e etc. Uma opção seria, uma vez que há a falta desse material para ambos trabalharem, dar o objeto apenas para o ator propositor, e não para o ator que realizará a cena.

Depois disso deixei os meninos os meninos fazendo a criação de imagens, e fui com a cena experimentar uma nova relação com a voz. Pedi que ele mapeasse as entonações e possibilidade vocais para a cena em que ela fala sozinha, com rabiscos anotações, formas que ela entendesse, onde ela fala alongado, onde ela fala baixo, rápido, embolado, grave, e etc, todas as variações possíveis que ela imaginasse enquanto decorava o texto. É a primeira vez que trabalhamos a voz dessa forma, Lucia Helena Gayotto em seu livro de Ação Vocal, já propõe essa técnica mais sistematizada, muito diferente do que estamos acostumados a trabalhar que é uma criação na prática, que surge espontaneamente em cena e não previamente elaborada, como fizemos dessa vez. Ao ir para a cena eu sabia que havia uma diferença, não sabia exatamente o que, Sami foi experimentando a partir do que havia escrito, eu fui acentuado coisas que considerava importante a partir desse olhar de fora da cena, realmente é uma relação mais técnica porém não é totalmente distanciada, a uma relação entre razão e emoção, onde ela se entrega para criar mas há em foco a percepção das coisas que havia escrito antes. Trabalhamos também com regra de jogo, não lembro exatamente quais, algo como mudar para o grave com uma palma, ou trabalhar os planos para a mudança desses "quem's" da menina. É interessante perceber a com isso, que o trabalho de partiturização da voz, é apenas mais um anteparo como qualquer outro, é um estímulo, é uma base, que ajuda na criação é se enquadra no empilhamento de um arranjo, que é composto por diversas coisas. 


Por: Brenda Perim